sábado, 15 de agosto de 2026

Bio: Almata Al'Ahyr

"A dor é só o começo!"

"Você não merece."

Era mais uma noite fria naquela velha estalagem que aprendemos a chamar de lar. Estávamos todos, como de costume, sentados em torno da lareira descansando de nossa última empreitada contra um grupo de rufiões locais que complicava a vida da população. Isso se tornou comum em nosso dia a dia nesse lugar. Tornamo-nos heróis locais (lendas, se depender de Gunnar, o taverneiro).

Faz alguns meses (tudo isso?) que atravessei as brumas e vim parar aqui. Conheci esses jovens intrépidos por quem desenvolvi afeto. Nós cuidamos uns dos outros. A doce Beatrice, com sua simpatia, nos une e parece invocar o melhor de cada um. O habilidoso Jamilton, apesar de mais reservado, é também uma nobre alma. As vezes me pergunto se minha alma está à altura da deles.

Há dias em que as vozes não cessam. Desde meu "renascimento", vozes, sons, imagens e sensações me assolam como um pesadelo constante. Tento não transparecer, não deixar transbordar para meus jovens companheiros, mas por vezes isso é deveras difícil.

Foi naquela noite fria, enquanto eu tentava me aquecer e me esforçar para ignorar as vozes cacofônicas que me assolavam, contraindo até o limite da dor meus dedos para estancar o tremor, que a jovem Beatrice me perguntou com seu sotaque característico:

"Então, Sr. Almata, nos conte um pouco de sua história. Afinal, estamos há tanto tempo aqui que acho que já merecemos saber um pouco sobre essa sua terra ensolarada."

Sua fala me tirou de meu estado semi catatônico. Olhei fundo em seus olhos por um instante e vi a curiosidade e inocência característicos da jovem. Mesmo não necessitando respirar, talvez por instinto, talvez como ato simbólico inconsciente, suspirei fundo e iniciei a minha história.

"Não importa onde estiver, nós estaremos contigo."

"O teu sofrimento é tudo o que temos."

"Meu nome é Almata Al'Ahyr.

Não. Isso é uma mentira.

Eu não tenho um nome. Ao menos, não me recordo de um. Esse é o nome que me foi dado quando 'renasci'. Entenda, eu não tenho recordações da maior parte de minha vida. Para todos os efeitos e a despeito de minha aparência anciã, minha memória se estende somente até poucos anos atrás.

Dor. Essa é a primeira coisa de que me lembro.

Não uma dor de cabeça ou a dor de uma batida quando nos machucamos no dia a dia. Não, era algo muito maior e mais amplo, uma agonia que percorria cada parte de meu corpo. O ato de abrir os olhos em si já pareceu um enorme sacrifício principalmente quando a luz, ainda que distante, feria meus olhos. Tentei me mexer e lembro de urrar, sentindo músculos reticentes, juntas travadas, partes de meu corpo que pareciam lutar contra mim mesmo, ardência e a sensação de lâminas penetrantes em cada movimento. Contudo, mal sabia eu que a dor de meu próprio corpo era apenas um de meus tormentos.

Depois de um tempo aparentemente imensurável no estado de espírito em que me encontrava, consegui finalmente prestar alguma atenção ao meu entorno e pude absorver o grotesco da cena em que me encontrava: estava caído em meio a diversos cadáveres no que pareceia uma grande câmara de pedra. Eram corpos mortos das mais diversas formas e nos mais diferentes estados de degradação. Lembro-me do terror e desespero que senti ao perceber os restos mortais de outras pessoas sobre mim, o sangue seco em minhas vestes e no meu corpo. Como havia chegado aquele ponto? O que aconteceu ali? Naquele momento, eram essas as perguntas que assolavam meu espírito desesperado. Pensar minha identidade era uma questão que ainda não fora desenhada.

Consegui me levantar a muito custo e após o que pareceu uma eternidade chegar em passos trôpegos à saída do que agora se mostrava como um grande templo em meio a um deserto de areia escaldante. O calor era implacável, mas não via alternativa senão caminhar em frente. Durante o dia, o sol era inclemente e à noite o frio era paralizante. Estava certo de que mais cedo ou mais tarde eu sucumbiria à fome ou à sede. Para minha própria surpresa, resisti dias sem comida ou água. Isso não significa que a travessia do deserto tenha sido tranquila. Não, senti todos os efeitos do cansaço, do calor e frios desmedidos, do desejo de desistir. E foi o que fiz. Certo dia, simplesmente me joguei no chão e decidi desistir. Deixei que o sol queimasse minha pele, minha alma. Entregava-me à areia. Queria a morte. Mas a Morte, essa senhora de gostos peculiares e temperamento volátil, parecia ter outros planos. Foi naquela noite que começaram as aparições.

Lembro-me de acordar de meu estupor com os sussurros. Inicialmente baixos, incompreensíveis, próximos. Uma centelha de esperança se acendeu em mim por um momento acreditando que havia alguém por perto que pudesse me salvar. Quão enganado eu estava.  As vozes se intesificaram até se formarem como uma cacofonia de insultos e acusações em meio a gritos raivosos.

"Você nos abondonou. Não merece a vida que tem."

"Traidor. O que você quer?"

Imagens de pessoas mutiladas, imagens estranhamente familiares e ainda assim irreconhecíveis me surgiam em lampejos. Nos cantos de minha visão, essas assombrações brincavam com minha sanidade enquanto me atacavam. Gritei pra que parassem. Perguntei-lhes o que queriam de mim. Confessei que nada sabia e faria qualquer coisa pra que aquele tormento acabasse. A dor e cansaço físicos com o desgate da mente me levaram novamente ao chão onde, apesar do desespero e desejo extremo, me vi incapaz de derramar uma única lágrima. Acho que foi nesse instante em que me perguntei pela primeira vez não somente quem eu era, mas o que eu era.

Não me lembro o que se seguiu. Acordei já com a luz do sol nascnte e rostos encapuzados sobre mim. Achei que eram ainda os espectros da noite anterior e em meu íntimo, me assustei. Mas me faltavam forças para reagir. Descobri mais tarde que se tratava de um povo nômade do deserto que me encontrou e me resgatara. Fui acolhido e tive minhas feridas tratadas. Protegeram-me do sol e das intempéries. Ofereceram sua comida e água, tesouros de onde venho, mas logo descobri que essas necessidades mundanas não faziam mais sentido pra mim. A mera tentativa de ingerir alimentos me causa uma espécie de náusea. Além disso, percebi, pra minha tristeza, que já não sinto mais prazer no sabor dos alimentos. Tudo parece terroso, seco, sem vida.

Após alguns dias de viagem, minha recuperação já me permitia que eu me comunicasse melhor e conseguisse me locomover pela comitiva e acampamentos. Mas apesar de toda a disponbilidade em me ajudar na recuperação, meus salvadores mantinham-se reservados e pareciam me evitar. Qualquer inquérito era recebido com silêncio. Era estranho porque podia sentir neles um desejo real de me ajudar, de trabalhar em prol de minha recuperação, mas ao mesmo tempo uma espécie de medo daquilo que eu, inadvertidamente, representava. Foi assim que percorri por dias um enorme deserto cercado de gente sem me comunicar minimamente com outro indivíduo. Além do salvamento, deram-me outro presente funesto quando os ouvia em sussurros referirem-se a mim. 

Almata Al'Ahyr. Em uma tradução aproximada do idioma de minha "terra natal", isso significa "o não morto". Achei propício, uma vez que não estou de fato morto, mas também não exatamente vivo, nessa paródia de existência. Mais tarde, adotaria esse nome quando perguntado, compartilhando meu mórbido presente. E nas noites, sozinho em minha tenda afastada do grupo principal, minhas únicas visitas malditas eram os espíritos atormentadores.

"Seu verme patético, você não me ama?"

"Que sua alma seque como as areias do deserto, meu senhor."

Foi assim que cheguei a Muhar, a única cidade em toda a região próxima a um oasis. Lá chegando, meus salvadores me deixaram ir. Com seus rostos encobertos e ainda sem dizer uma única palavra, vi em seus olhos que sua missão se completara.

Agora eu era livre para perseguir minhas próprias ambições. Vaguei pela pequena cidade como pedinte em busca de informações e subsistência. A maior parte das pessoas ou não queria se envolver ou não tinha nada a oferecer, fosse com materialidades, fosse com informação. Era como se eu jamais tivesse existido. 

Era um dia como outro qualquer em que tentava inutilmente entender algo mais sobre mim quando reparei em uma grande edificação da cidade. Logo descobri que se tratava de uma biblioteca que passei a frequentar. A essa altura, já havia aprendido minimamente a lidar com meus demônios, ao menos o suficiente para não deixar transparecer quando estava em público. No entanto, houve um dia particular em que minha alma foi fortemente acometida por meus tormentos e tive um surto em meio aquele templo de conhecimento pelo qual passei a ter tanta consideração. Recobrando meus sentidos, vi claramente o olhar de julgamento que todos me lançavam, principalemente o bibliotecário chefe.

Mas foi aí que conheci Julian. Orelhas pontiagudas, estatura baixa, magro, de pele clara e cabelos negros, lisos e longos, claramente ele não era daquela região de gente castigada pelo sol. Ele foi o único que se aproximou para me ajudar. Tirou-me para longe dali a fim de evitar os olhares desconfiados de todos. Levou-me à sua pequena casa nso arredores da cidade. Talvez tenha sido a primeira pessoa com quem consegui engajar em uma conversa franca e aberta.

Julian sempre deixou claro que ele não era daquela região e que estava apenas em temporada por lá. Disse que vinha de terras muito distantes e diferentes daquelas de Har'Akir onde estávamos. Era um estudioso das artes arcanas e estudava os costumes da região, sua cultura e crenças que giravam em torno do grande faraó Ankhtepot e sua busca interminável pelo pedaço perdido de sua alma. Foi com Julian que finalmente pude ter um semblante de vida. Foi ele que me introduziu nas artes místicas onde me especializei no estudo da vida e da morte a fim de tentar entender melhor minha própria existência. Embora tenha avançado rapidamente nos últimos anos e muito mais rápido do que Julian considerava natural, confesso ainda ter mais perguntas do que respostas quando o assunto é a natureza de minha existência.

"Mamãe!"

"Por quê?"


Bio: Almata Al'Ahyr

"A dor é só o começo!" "Você não merece." Era mais uma noite fria naquela velha estalagem que aprendemos a chamar de lar...