sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Bio: Galdera

Eram gêmeos. No inicio crianças espelho.

O pai um homem, se excepcional em particular não é certo, mas fascinante de algum modo ou do contrario não teria tido efeito sob a mãe, uma elfa, não tão casta nem de linhagem tão baixa para que o estranhamento de tal incidente não fosse sentido. Mas bastou isso. Estavam mais para amigos enamorados. Muito longe de serem amantes jurados. E o fim veio tão ou mais brusco que o inicio. Ele se foi, mas as crianças ficaram, gerando uma felicidade agridoce num ventre teimoso.


Mas a vida é por si uma dádiva que deve ser bem acolhida. E, independente dos narizes tortos, e comentários silenciados, as crianças foram acolhidas entre os seus, com os devidos e possíveis respeitos para tais circunstâncias. Pois não bastasse o sangue misturado, brotara logo em par. Uma menina e um menino. E de inicio, eram um espelho.

Entre os seus aprenderam cedo que não eram elfos por inteiro, eram meios. E sendo tais cresceram cedo, deixando a infância élfica para os puros cujo tempo lhes era outro. Mas aos mais velhos eram para sempre jovens. Com o gosto amargo do não pertencimento que traziam na boca, juntos eles aprenderam a crescer nas entrelinhas do que eram. O garoto trazia em si o coração apaixonado e por vezes colérico dos homens, e há quem dizia que no ventre o próprio sangue havia se dividido, e enquanto nele o homem crescia, ela trazia em si o equilíbrio paciente dos elfos, harmonizando os extremos do gêmeo. Mas ambos, orgulhosos, cresceram juntos na gana por mostrar certo valor. Ele excepcional nas artes de combates era seguido de perto por ela que nele espelhava tudo, embora seu intelecto sempre mostrasse ser mais faminto.

Foi muito tempo depois, já consagrados e quase pertencentes em sua comunidade, que uma desavença, veio a varrer tudo pelo que lutaram. Ele, esquecido de suas origens, ousou almejar o que não lhe pertencia. Uma elfa, de alta casta, prometida, que ele enlaçou numa paixão proibida. E tudo veio para alimentar o velho rancor do preconceito acumulado em seu peito, do impedimento, as ameaças pela sua insistência, até os pequenos duelos e por fim o banimento de um apaixonado enraivecido. Sua irmã, impotente em lhe acalmar as ideias ou lhe incutir qualquer juízo assistiu sua metade partir. Partir somente para voltar muito mais tarde. Voltar mais tarde, acompanhado de homens e um plano cego e colérico de vingança. A cidade sitiada, pilhada e em dado momento, ela, uma dos combatentes em defesa de seu lar, por mais que houvesse rezado para que não, se viu arrastada pelo acaso e a arena de combate até diante de seu irmão. Pois ela conhecia seu coração, e sabia o único modo de acalma-lo. Nunca houvera duelo mais violento, ou oponentes mais determinados a se darem um fim. Ao termino, com seu irmão caído ao chão, ela veio a lamentar que os ferimentos que ele lhe causara por mais profundos que fossem não foram capaz de leva-la também.

Eram gêmeos. Uma vez espelhos. E tudo ao seu redor se dividiu por metade com a morte. Não houve mais um lar após tudo. A mágoa entre os seus era tamanha, tanto quanto a tristeza da memoria do irmão. Não fosse a intolerância e o preconceito no qual cresceram nada teria terminado de tal forma. Arrancara na espada suas raízes. As pessoas olhavam-na sem saber se viraria santa ou demônio. Os santos aparecem, os demônios assombram.

Partiu, na esperança de não ser mais o que fora. De esquecer o que para sempre lhe faltaria.Gastou um tempo de sua vida entre os homens, em uma vã esperança que a outra ponta de sua linhagem pudesse ocupar o vazio que a solidão lhe incutia. Era agora só uma e única. Entre eles encontrou o senso de humor negro que sabem tão bem, o gosto por bebidas e conheceu a malicia. Sujou um pouco do recato de seu sangue com o lado menos nobre que lhe era desconhecido até então. Aprendeu o paraíso e o inferno que são os outros. Porem, não diferente de seus parentes elfos, não houve ali terra alguma pra plantar quaisquer raízes. Não pertencia entre os homens e nem eles assim permitiriam. Era meio, e agora era meia por inteiro, sem mais o gêmeo a lhe completar. Em dado ponto, após o fascínio com o novo se acalmar, se resignou com as entrelinhas por onde viver, recuou para as florestas, tornou-se nômade por um tempo, se perdeu entre os bosques e em si mesma. Há quem diga que se exilou em alguma punição pessoal, há quem diz ter visto o vulto negro e sombrio que lhe segue entra as arvores, o irmão encarnado em alguma besta a lhe assombrar. Mas há também quem suspeita que simplesmente patrulhe trilhas, há quem já avistou como guia a auxiliar viajantes. Tem quem jura saber o numero de moedas certas com as quais ela pode rastrear algo ou até mesmo caçar ou pior. O único fato é que... Não sendo mais um espelho, virou sombra.

Por Georgia Nutter

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Bio: Aron Buscapedra

Oi pai.

         Sei que faz tempo. Muito mais tempo do que deveria ser aceitável. Já se passaram quantos anos? Dez? Vinte? Não importa. Nada justifica que um filho fique tanto tempo assim afastado de sua família. Hoje percebo isso e me arrependo do tempo perdido e da preocupação que certamente causei a vocês. Só peço que entenda, pai, um pouco do que me aconteceu também.
            Em Mintarn, vocês tentaram a todo custo me dar uma vida normal e livre das influências do regente e eu serei eternamente grato a vocês por isso. Mas eu cresci e suas barbas brancas surgiram. Chegou o momento em que eu deveria ajudá-los. Em um fim de mundo como Mintarn, não existem lá muitas opções de trabalho como o senhor bem sabe. Hoje percebo que deveria ter te escutado melhor e tentado mais outras áreas. Mas não foi o que aconteceu e acabei indo para naquela porcaria de companhia mercenária. Mas isso o senhor também já sabe.
            Se, por um lado, estava feliz que não me obrigavam a pegar em armas contra ninguém, por outra eu não suportava mais lavar convés de navio, descascar batatas ou carregar coisas prum lado e pro outro como um serviçalzinho medíocre, tendo que engolir aquele bando de idiotas me chamando de “nanico” e essas merdas que os humanos falam pra se sentirem muito superiores. Não sei o quanto eu demonstrava, pai, mas cada dia naquela companhia me matava um pouco, me fazia menos eu. Sentia vergonha de mim e do que estava fazendo ao nome “Buscapedra”.
            Não bastasse isso, vi e fiz coisas que nem ouso pronunciar. Perdão, pai, por ter desonrado tanto nosso clã, nossa honra, o legado dos nossos ancestrais.
            Quando aqueles bastardos me ofereceram a oportunidade de subir um pouco no escalão, de sair do navio e estabelecer uma vida com promessas de riquezas numa “das maiores cidades da Costa da Espada”… Eu sei, mais uma vez não te escutei e por isso me arrependo tanto. Você me pediu tanto que ficasse, me garantiu de todas as formas que dariam um jeito de nos sustentarmos. Eu, agindo como um moleque idiota, ignorei tudo. Tinha raiva. Na época, achava que era do senhor, que de alguma forma estava tentando me cercear. Hoje, em perspectiva, percebo que a raiva era de mim mesmo, pai. Não provaria nada pra você ou pra mãe. Seria pra mim mesmo.
            Peguei o primeiro navio que partia rumo a Neverwinter. Algum nobre pomposo daqui estava disposto a pagar uma boa quantia por gente disposta a ajudar a cidade a se manter de pé.
            Bom, acho que não preciso mais dizer o quão arrependido estou. Nem sequer cheguei na maldita cidade e uma tempestade como nenhuma que eu já tenha visto chacoalhou a porcaria do navio como um gigante balançando um berço. O navio não segurou muito tempo e quando já tínhamos vista da cidade, os mastros se partiram e viramos. Daquela noite, carrego comigo ainda o grito desesperado dos meus companheiros tentando se salvar em meio ao mar revolto. E depois, o silêncio. Tentei nadar, mas as ondas eram fortes e algo bateu na minha cabeça. O silêncio imersivo das águas me tomava por inteiro e então, escuridão.
            Acordei dois dias depois numa cabana simples e soube que fui salvo por um estivador local. Esse homem, pai, saiu de barco em meio a uma tempestade para salvar a vida de pessoas, entende? Um homem que nada tinha a não ser sua força e seu nome: Autarg. Isso foi o começo de minha maior amizade nessa nova terra. Em meio a toda a loucura que aconteceria no mundo, sabia que podia contar com Autarg para uma boa caneca de cerveja na taverna no final do dia e ríamos e filosofávamos (depois de alguns tantos canecos) sobre a vida. E cada dia que passava, cada história que contava a Autarg sobre o meu povo, sobre minha família, sobre VOCÊS, pai… mais saudade sentia.
            Ainda assim, precisava de dinheiro e ainda fiquei um bom tempo com a companhia. Precisávamos ajudar a cidade e reconstruir e, quando não, defender-se das loucuras que aconteciam por aqui. Aquela história toda com a magia quebrada no mundo não ajudou nada, vou te dizer. Nunca entendi exatamente o que provocou tudo aquilo e, pra ser sincero, não tinha muito tempo pra pensar nessas coisas. Quando não estava ajudando na reconstrução de alguma coisa, estava lutando (por vezes, fugindo mesmo!) pela vida.
            Assim, pai, os anos se passaram e minhas barbas também cresceram. Acho que o senhor se orgulharia delas. Acumulei umas tantas cicatrizes que ainda doem. É bem verdade que também fiz umas boas amizades que ainda me fazem sorrir. Procuro pensar que não foi tudo em vão: encontrei minha vocação ajudando os outros. Cada vez mais, lembrava do que aprendemos quando crianças sobre os valores do nosso povo. É engraçado como não damos o menor valor no momento em que nos é ensinado. Pro senhor também foi assim? Imagino que não, o senhor sempre foi um anão muito melhor do que eu jamais poderia almejar ser.
            A cidade recebe muita gente de fora, gente que, como eu, precisa de ajuda para sobreviver em meio às tempestades do dia a dia, seja uma chuva forte, a falta do que comer ou simplesmente de uma mão amiga que os ajude a se levantar. Lembro-me de um rapazinho, um halfling que ajudei dessa forma. Sempre muito taciturno e calado, consegui arrancar dele um sorriso que levo na memória com carinho. Naquele momento, tive a certeza de que estava no caminho certo.
            Ajudando assim os viajantes, foi quase natural que em algum momento eu chamasse o nome de Marthamnor Duin. E pai, os deuses não se esqueceram de mim. Pelo contrário, acho que sorriem pro meu intento e sinto suas mãos guiando meu caminho. Em cada ajuda, cada pedido atendido, sinto a força dos nossos ancestrais pulsar em mim. Hoje, clamo seus nomes com vigor e orgulho. O que eu não daria pra tê-lo ao meu lado num desses momentos…
            Enfim, encontrei meu primo, Gundren. Lembra-se dele? Ele conseguiu construir um belo nome pra si por aqui. Virou um importante anão de negócios com transações por toda a Costa da Espada. Desde que o encontrei, larguei a companhia e começamos a fazer uns trabalhos juntos e tenho levado o Autarg comigo. É bom, depois de tanto tempo, ter rostos familiares por perto, gente em quem possa confiar. O primo tem ajudado bastante, tanto financeiramente quanto apoiando iniciativas de minha parte.
            Certa noite, estávamos eu e Autarg na taverna, já bem tortos, quando tivemos a brilhante ideia de começar nossa própria companhia, criar um nome pra nós. Prometemos que seríamos diferentes daquilo que vivi antes. Seríamos decentes. Seguiríamos os princípios de honra e tradição que me foram passados. Que o companheirismo, a lealdade e a amizade estariam acima de tudo. Fizemos planos e deliramos que ficaríamos ricos. Mas acima de tudo, pai, pensei que essa companhia só poderia existir pelos valores passados por você. Por isso, somos os Filhos de Rurik, em homenagem a você. Autarg não se convenceu muito de que esse seria um bom nome, mas com o tempo acho que o convenço. Afinal, se nós, o povo sob e sobre a montanha é pra ser conhecido pela teimosia, que algo de bom saia disso, não é mesmo?
            Mas enfim, estávamos bêbados. No dia seguinte, acordo com uma dor de cabeça infernal como se goblins saltitantes pulassem lá dentro e tento começar meu dia normalmente. É quando me surgem Autarg e Gundren, juntos, com uma conversa sobre precisarmos de mantimentos e veículos e de recrutar mais gente. Sem entender coisa alguma, procuro uma caneca d’água enquanto eles parecem animados com alguma coisa que não faz o menor sentido pra mim. Só depois de algum tempo e muitas perguntas desnorteadas é que entendo: Autarg e Gundren já colocavam em movimento nosso ébrio plano da noite anterior. Partiríamos em nosso primeiro trabalho assim que nossa equipe estivesse completa para algum novo empreendimento de Gundren num vilarejo a alguns dias de Neverwinter chamado Phandalin. Admito que ainda não entendo completamente o que está acontecendo, pai, mas estou feliz. Sinto Marthammor me apoiando. Penso que estamos fazendo a coisa certa.
Deixo essa carta com um mensageiro enquanto sigo meu caminho para fora da cidade na esperança de que ela o encontre forte e saudável como a lembrança que tenho de ti. E se os grandes artesãos assim desejarem, nosso reencontro ainda será forjado e eu, você e a mãe beberemos e riremos até que as montanhas não passem de montes de poeira.

Com amor, saudade e a força dos Buscapedra, seu filho,



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Crônicas do Submundo - O Triumvirato

LILY

Jogadora: Tainá
Raça: Lightfoot Halfling
Classe: Rogue 1
Strength           14
Dexterity          16
Constitution     14
Intelligence      10
Wisdom            12
Charisma           8











VALANTHIA


Jogadora: Janaína
Raça: High Elf
Classe: Wizard 1
Strength            8
Dexterity          16
Constitution     10
Intelligence      16
Wisdom            13
Charisma          12











JAHEIRA

Jogadora: Diana
Raça: Human Variant
Classe: Fighter 1
Strength           14
Dexterity          16
Constitution     14
Intelligence      10
Wisdom            12
Charisma           8

Fighting Style: Duelist
Feat: Defensive Duelist








Crônicas do Submundo

O Império existe há mais tempo do que a maioria é capaz de lembrar. Para muitos, ele sempre foi e será tudo o que conhecerão. Não se sabe exatamente sua extensão ou o que existe além de suas fronteiras. Se o Império sequer tem fronteiras.

Indo além, para uma grande maioria, o Império é a Capital e a Capital é o Império. Suja, decadente, mal-cheirosa, um denso nevoeiro confunde-se com a poluição de fábricas. Os gritos dos pregoeiros nas ruas fundem-se ao choro de crianças famintas. Nos becos e recantos obscuros, pode-se comprar de tudo um pouco: produtos roubados, armas, entorpecentes... até mesmo pessoas, embora a escravidão seja oficialmente ilegal.

Em meio a tudo isso, existe a figura alegórica de um Imperador que nunca se manifesta. Há gerações inteiras que nunca sequer viram seu rosto. Tudo o que se sabe é que Ele é o mesmo desde a fundação do Império e Sua longa vida de séculos é prova suficiente de Seu enorme poder. Ele cuida nós, dizem. Ele tudo sabe, dizem. Por isso, o povo nada precisa saber. Por isso, livros são queimados e a palavra escrita é ilegal.

Além do Imperador, existem as casas nobres. São oito ao todo, contando a imperial, criadas a partir de figuras há muito esquecidas. Alguns sugerem que foram heróis valorosos e honrados de outrora. E alguns poucos questionam-se o que aconteceu à honra. Mas questionar o Império pode não ser muito saudável. As autoridades chamam a esses de baderneiros, revoltosos e criminosos. Mas eles chamam a si mesmos de Resistência.

A capital é grande e ainda assim não comporta toda sua população. As celas das prisões não comportam, proporcionalmente, todos os seus criminosos. Por isso, para os casos mais graves e, principalmente, aqueles de alguma forma associados à Resistência, a sentença é o Submundo.

Sobre isso, não se sabe muito. É um ritual que começou desde a fundação do Império e, dizem alguns, está inserido no contexto próprio de sua fundação. O criminoso é jogado amarrado, em cerimônia pública, no Rio Styx que corta toda a Capital e deixado a mercê da corrente. Em algum ponto, afastado do centro, o Rio cai, desaguando no Submundo.

O sistema de justiça prega que aquele que conseguir voltar do Submundo, terá seus crimes perdoados. Ninguém jamais voltou. Assim, tudo o que se sabe sobre esse obscuro lugar para onde tantos vão, está circunscrito em lendas e fofocas populares e essas não são boas imagens. Mas isso já é outra história...

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Novo projeto

Surge aquele momento durante a faculdade em que um professor pede um trabalho de tema livre. A única restrição é relacionar-se com cultura e comunicação. O que você faz? Um projeto que fale sobre RPG. é claro.

E surge também aquela colega que, não tendo a menor ideia do que fazer para apresentar ao final da disciplina, pergunta se pode fazer o trabalho contigo. Você aceita. E descobre que ela nunca jogou RPG. Mal sabe qualquer coisa sobre o jogo de mesa. Desespero.

Mas é justamente nesses momentos que surgem oportunidades. De ensinar e aprender. Esse é o atual desafio.

Segue a descrição de nosso projeto pro final do período.

CCA0204 – História da Cultura e da Comunicação II
Docente Anderson Vinícius Romanini
Fernando Azambuja/9799300
Janaina Abreu Oliveira/10431751
Apresentação de Projeto
Jogos de RPG: Análise em um contexto cibercultural

            Lançado comercialmente em 1974 nos EUA, o primeiro jogo de RPG (Role-Playing Games ou Jogos de Interpretação de Papéis em uma tradução livre) alcançou grande sucesso, principalmente, entre o público jovem ligado a determinados nichos sociais. Por aproximações temáticas, interessados em jogos em geral, leitores de quadrinhos, fãs de literatura fantástica e ficção científica sentiram-se atraídos por essa nova forma de entretenimento que surgia. Surgiam também os preconceitos em relação a essas manifestações incompreendidas e as denominações: os nerds viram-se segregados e encontraram em suas afinidades uma possibilidade de pertencimento e expressão. E aí, o RPG foi particularmente eficaz.
            Com o passar dos anos, a popularidade do jogo aumenta e os produtos desse novo mercado atingem outros países. Paralelamente, o mundo moderniza-se: novas formas de comunicação e produção passam a exercer influência cada vez maior na vida dos indivíduos. As relações de espaço e tempo mudam. Dentro desse novo contexto, surgem outras formas de entretenimento particularmente nos jogos eletrônicos. É feito um esforço no sentido de transpôr a experiência dos jogos de RPG para esse novo universo e o jogo original, analógico, agora chamado “de mesa”, já não é conhecido pelas gerações mais novas.

            Esse projeto consiste na apresentação de um seminário em que se faz uma análise das dinâmicas originais do jogo e as transformações por que passou ou poderia passar. Apontam-se mecanismos adaptados a essa nova realidade cibercultural e discute-se a questão sobre o RPG tal qual foi concebido ainda ser pertinente nos dias atuais.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Crônicas de Miah - Aventura 00 - Prólogo

O chão parecia brilhar em ouro quando o sol se punha sobre as folhas secas que quase encobriam a estrada. Apesar do céu limpo e sol forte, o vento frio que soprava do norte causava arrepios na nuca da pequena elfa que balançava tropegamente no assento da carroça conforme essa seguia seu lento curso rumo ao oeste. O anão que estava o seu lado parecia não sentir o frio, cantarolando baixo qualquer coisa que dava a Miah a sensação de tempos passados, de outra era.

Perdida e sem rumo certo, para Miah esse trabalho de escolta veio em boa hora. Era uma chance de conseguir algum dinheiro e espairecer. Durante sua jornada à Floresta Raiz do Inverno, a jovem descobre um mundo imenso que não conhecia e algo desperta nela. Um desejo por conhecer, vivenciar todas as maravilhas desse mundo. Seus semelhantes, sejam os do norte quanto os do sul, fecharam-se em seus pequenos mundos e, pela primeira vez, ela sente a necessidade de tomar seu próprio rumo, de seguir sozinha.

Conhece Traevus na Casa das Cinco Léguas. famosa estalagem de beira de estrada, quando busca trabalho. Para sua sorte, é um indivíduo justo e quieto. Seguem a maior parte do tempo em silêncio rumo a Queda Escarpada onde Traevus tem mercadorias pra vender e encomendas pra entregar. Em silêncio durante a maior parte do tempo, o grupo com Traevus, Miah e dois jovens anões segue uma viagem tranquila pela Estrada do Comércio.  E assim ocorreu até quase alcançarem seu objetivo.

Faltavam poucos quilômetros para o grupo chegar a seu destino. Era manhã a acabavam de retomar a estrada. Passavam no ponto mais próximo às Colinas da Lua. Foi quando a primeira flecha foi atirada.

Subitamente, a comitiva foi assaltada por pequenas criaturas armadas com espadas e arcos curtos precários. Alguns se utilizavam de lobos como montarias. "Goblins!" gritava Traevus. Embora fracos, tinham vantagem em números e pareciam vir de vários pontos da floresta. A escaramuça foi rápida e não sem perdas. Os dois jovens e enérgicos anões, levados pelo desejo de mostrar seu valor em combate, jogaram-se temerariamente de encontro aos assaltantes. Embora tenham derrubado vários, foram também derrubados por múltiplos ferimentos. O próprio Traevus pegou em armas contra as criaturas mas mesmo isso não foi suficiente para impedir que uns sobreviventes roubassem alguns itens.

Sentado no chão com sua besta, exasperado, o velho anão olhava ao seu redor, particularmente para os jovens e sua carroça, desolado. "É meu fim" dizia ele "Minha encomenda mais preciosa foi levada. Menina, você tem que me ajudar. Os outros itens nem me importam tanto. Mas a caixa de madeira que me foi roubada é muito valiosa. Ela sozinha pagaria por toda essa viagem. Preciso reavê-la. Preciso que você faça isso por mim."

Era final de tarde e já quase anoitecia quando Miah chegava à entrada da caverna depois de seguir o rastro dos goblins fugitivos até um ponto na região central das Colinas da Lua. Havia negociado um novo acordo com Traevus pela recuperação da caixa. Deveria encontrá-lo em Queda Escarpada quando terminasse o serviço. O vento que soprava de dentro da caverna trazia um ar pesado e fétido. Mas isso é parte do serviço. Parte do contrato. Parte de um rumo tomado sozinha, pela primeira vez.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Do panteão de Aiyê

Não se sabe do princípio. Sabe-se apenas que eles estavam lá. Eram muitos , tantos e tão diversos. Como ou quando já não importa, mas Olorum foi o primeiro, se é que já se contava o tempo.

De sua essência vieram Oxalá e Odudua, irmãos e amantes, complementos da criação com o material. Juntos, propulsores de toda a força criadora, fizeram surgir a terra e o mar e a esses foram dados os nomes de Aganju e Iemanjá. De seus filhos, o pai orgulhoso ainda hoje cuida e o vemos em todo seu esplendor quando atravessa os céus em sua ronda diurna.

Iemanjá e Aganju, união perfeita e amor eterno. Deles, surge  Orungan, filho e eterno e apaixonado por sua mãe. O mais belo entre os orixás, preenche o espaço entre o céu e a terra com o ar e diz-se que ao olhá-lo, ele é a primeira coisa que se vê pois ele tudo permeia. No calor da paixão por sua mãe, persegue-a loucamente e ela o nega. Um dia, engana seu pai criando-lhe uma distração e assume sua forma, tendo roubado a coroa de seu pai, a “Coroa de Estrelas” ou “Adeírawo”, entregue a Aganju pelo próprio Oxalá com seis grandes gemas que simbolizavam os segredos da criação.

Enganada, Iemanjá deita-se com o filho e esse mostra-se à mãe ao final do ato para seu desespero. Confusa e com repulsa pelo ato que cometera sem saber, Iemanjá corre de seu filho em uma perseguição desenfreada e acaba por tropeçar e cair, machucando-se severamente. De seus seios, duas enormes torrentes d’água surgem acumulando-se e formando o mar. Seu enorme ventre, agora inchado, irrompe em uma explosão de sua essência divina.

Aganju retorna da falsa tarefa que seu filho havia criado e toma conhecimento do acontecido. Ocorre um combate aterrorizante em que a própria terra rugia e os ventos gritavam. Percebendo o que acontecia, Oxalá interfere e tenta impedir que pai e filho se matem. Mas num momento de fúria, Aganju aproveita-se da distração dos outros dois e devora de uma vez o próprio filho. Desde então, a morada de Orungan é dentro de Aganju, debaixo da terra. A Coroa das Estrelas cai dentro do mar de Iemanjá e a essência da criação das seis gemas da coroa une-se à essência divina da deusa, dando origem  aos seis orixás maiores do panteão:
Xangô, Ogum, Oxóssi, Oxum, Iansã e Nanã. Contudo, muitos outros surgiram como Omulu, Oxumaré etc.
Nascia o panteão de Aiyê.

Triste com o acontecido, Olorum parte pra nunca mais ser visto.

Oxalá, tentando dar sentido aquilo tudo, utiliza a união da água do mar com a terra e do barro cria o primeiro homem e isso parece deixar todos felizes. Comemora, bebe e se diverte junto aos outros orixás e nesse momento tenta criar novos homens. Mas, entorpecido, cria pequenos seres, humanos um pouco diferentes que viriam a se tornar os anões.

Outros orixás seguem o exemplo, como Oxóssi que cria os elfos. Nanã tenta também realizar sua criação, mas não tendo a experiência e poder de Oxalá nem a sabedoria de Oxóssi, acaba criando aberrações deformadas e sente nojo, renegando-as. Xangô, junto a Oxalá, julga Nanã e considera seu ato de muito egoísmo, punindo-a, tirando sua beleza que antes rivalizava com a de Oxum e confinando-a à solidão e feiúra dos pântanos e charcos onde a lama que a cerca será pra sempre um lembrete da tristeza a que quis relegar sua criação, hoje os orcs.

Bio: Almata Al'Ahyr

"A dor é só o começo!" "Você não merece." Era mais uma noite fria naquela velha estalagem que aprendemos a chamar de lar...