Um era um nobre, nascido de família rica e de nome, mesmo que pequeno na
história do reino. Era o segundo filho, concebido anos depois do primeiro. A
primeira criança era forte, viril, ágil e já montava e lutava. Um acidente
mudaria tudo isso.
Quando o irmão cavalgava pelas pradarias das terras do pai, uma súbita
trovoada assustou o cavalo. Uma queda. Ossos quebrados e uma criança sem poder
andar.
Nasce um pai desesperado por proteger sua prole. O desespero impele as
ações mais descabidas nos homens.
Médicos, clérigos, alquimistas, charlatões... ninguém foi capaz de trazer
o andar de volta ao menino. Soluções não ortodoxas foram procuradas.
No coração de um charco escuro, o pai desesperado a encontrou. Era
horrível e nojenta. Era suja e cheirava a enxofre e podridão. Seu preço era
simples: deitar-se com ela e o garoto voltaria a andar. Além da cópula, ela
alertou, outros preços seriam cobrados. Mas ele afrouxou o cinto e não
perguntou.
No dia seguinte, seu primogênito dava sinais de melhora. Em uma semana, brandia
sua pequena espada de madeira pelo pátio do castelo. A casa enchera-se novamente de alegria e o pai,
não mais em desespero, deitou-se com a mãe. O segundo filho foi concebido sob a
não luz da lua nova e o cheiro ébrio de vinho.
Chegada a hora de vir ao mundo, a criança rasga a carne macia de sua mãe.
Sangue escorre. Gritos proferidos. O desespero novamente se instala.
O segundo filho. Aquele com seus chifres, sua pele em tons de púrpura,
sua língua bifurcada. Segundo filho. Matricida.
O peso do desespero constante uma hora cobrou seu preço. O pai desistiu da
vida. Das terras. Dos filhos.
As crianças foram criadas pelos serviçais que, mesmo com algum nível de
medo, tinham pena dos pequenos. Foi-lhes dado tanto amor quanto possível. Os
filhos dos serviçais eram mantidos a distância.
Haviam dois em especial. Um era curioso e destemido, pulava por todo lado
como um gato e sempre arranjava um jeito de se esgueirar pra dentro dos
lugares. O outro, adorava a floresta e todos os seus mistérios. Ambos tinham
curiosidade pelo menino de chifres que nunca saía para brincar. Ambos entraram
escondidos no castelo. Dois tornavam-se três.
O pequeno círculo foi o único alento da criança amaldiçoada ao longo dos
anos. Seu pai nunca lhe dirigiu a palavra ou sequer lhe encarou o rosto. Quando
seus amigos não estavam por perto, a biblioteca era seu refúgio, a magia seu
passatempo. Os mistérios arcanos eram o que lhe restava naquele corpo fraco e
deformado.
Seu irmão, antes saudável, começava a adoecer. O que antes parecia algo
passageiro, mostrou-se mais sério. Quando a febre não passou, disseram que era
questão de tempo. Quando o apetite lhe faltou, pediram mais tempo. Quando seu
corpo perdeu a vividez e manchas roxas lhe cobriram, disseram que seu tempo
acabou.
O menino agora homem não quis aceitar. O menino agora mago pediu ajuda a
seus únicos amigos. Três tornavam-se quatro.
Fugitivos.